Buda, Histórias

A aceitação da morte

7 1457

Houve uma vez uma jovem chamada Kisa – ou “magra” – Gotami. Ela veio de uma família pobre que só podia oferecer um dote muito pequeno a um marido em potencial. Mesmo assim, encontraram um marido para ela, e a moça foi viver com a família dele. Mas Kisa era sempre olhada com um certo desdém, devido ao seu pequeno dote.

Seus novos familiares eram rudes com ela e faziam com que trabalhasse muito, tratando-a apenas um pouco melhor do que uma criada. Após algum tempo, ela deu à luz um filho e sua vida mudou. A criança lhe trouxe felicidade, e ela passou a ser tratada com mais respeito pelos parentes. Infelizmente, seu filho, ainda muito pequeno, adoeceu. A doença piorou, e Kisa Gotami observava, desesperada, a vida da criança se esvair. Apesar de todos os seus esforços, ela morreu.

Em sua dor, Kisa ficou histérica e se recusou a acreditar que seu filho estava morto. Agarrava-se ao corpo da criança e não deixava que seus parentes o levassem. Segurando o corpo, ela vagou pelo vilarejo, implorando às pessoas que lhe dessem algum remédio que pudesse curar seu filho. Algumas a tratavam com desprezo, outras respondiam de forma confusa ou desconcertada. Outras tentavam fazê-la aceitar a realidade, oferecendo-lhe simpatia e consolo. Queriam ajudá-la a encarar o fato de que seu filho havia morrido, mas ela não ouvia. A única coisa que desejava era um remédio que pudesse trazer seu filho de volta.

Alguém, então, sugeriu que ela fosse ver o Buda. Ele tinha a reputação de possuir diversos poderes misteriosos. Talvez pudesse ajudá-la… Com esperança renovada, Kisa foi correndo até onde ele estava e, finalmente em farrapos e chorosa, chegou à sua presença, pedindo histericamente que ele desse um remédio para curar seu filho.

O Buda olhou para Kisa Gotami e para a criança morta que ela trazia em seus braços e disse:

– Sim, eu posso ajudá-la, mas antes que eu consiga preparar o remédio você precisa me trazer uma coisa. Precisarei de uma semente de mostarda.

Transbordando de felicidade, a moça estava prestes a sair correndo. Afinal, todas as casas da Índia possuem um pote com sementes de mostarda na cozinha, e logo ela poderia obter o remédio para seu filho.

– Entretanto, há uma condição – continuou Buda. – A semente deverá vir de um lar no qual ninguém tenha morrido.

Sem pensar sequer por um segundo, a mulher partiu, cheia de esperança em seu coração. Chegou à primeira casa e perguntou se poderiam lhe dar uma semente de mostarda. A mulher que morava lá disse que ficaria feliz em ajudá-la, mas então Kisa Gotami se lembrou das palavras de Buda e perguntou:

– Alguém já morreu neste lar?

– Meu avô morreu mês passado. Por favor, não me lembre disso.

E então, Kisa continuou de casa em casa, mas ouvia sempre a mesma história. Em um lar, era a esposa; na outra, o marido; em outras, um irmão, uma mãe, o filho, o pai, a filha… Em todos os lares, a morte era comum. Diziam para ela sucessivamente:

– Os que vivem são poucos, mas os que se foram são muitos. Por favor, não nos lembre de nossa dor.

Kisa foi compreendendo que a morte chega para todos e que ela não estava sozinha em sua perda. Calma e controlada, olhou para a criança em seus braços e finalmente foi capaz de aceitar o fato de que ela havia morrido. Levou seu bebê para o local onde eram realizados os funerais, deu-lhe adeus e retornou para o Buda.

O Buda a recebeu com boas-vindas e perguntou se havia encontrado a semente de mostarda de que ele precisava para fazer o remédio.

– O trabalho do remédio já foi feito – ela disse.

Kisa pediu ao Buda que a aceitasse como discípula e a ordenasse como monja. Tempos depois, meditando na floresta, Kisa Gotami encontrou a perfeita libertação da Iluminação.

Como uma grande enchente arrebata um vilarejo dormente, da mesma forma a morte leva o homem que colhe as flores da existência com o coração absorto em prazeres.

Dhammapada 47.

Extraído do livro “Histórias e Ensinamentos da vida do Buda”, de Saddhaloka. Editora Sextante.

Compartilhe
  • 65
    Shares

About the author / 

Editor

7 Comments

  1. MARCIO FERREIRA 1 de outubro de 2012 at 9:08 - 

    MUITAS PESSOAS ANDAM PELO MUNDO, DE UM LADO PARA OUTRO EM BUSCA DE ALGO QUE DIZEM SER SINÔNIMO DE “FELICIDADE” E ESQUECEM QUE AO FAZER O OUTRO FELIZ, COM A PRATICA DA CARIDADE ,A SI MESMAS ESTÃO A PROPORCIONAR ESTA RIQUEZA.ENTENDER A MORTE NÃO É FÁCIL PARA QUEM SOMENTE VÊ O LADO MATERIAL. QUANDO SE SABE QUE TÃO SOMENTE É UMA PASSAGEM E SE VIVE DA MELHOR MANEIRA POSSÍVEL EM HARMONIA COM OS SERES QUE AQUI NA TERRA VIVEM, TEM O MERECIMENTO DO ENTENDIMENTO DESSA PASSAGEM QUE PARA O ESPIRITO NADA MAIS É QUE UM NOVO “NASCIMENTO”.

  2. Renato 9 de abril de 2012 at 16:14 - 

    A morte chega para todos, quer a aceitemos ou não. Isso não tem nada a ver com o fato de pertencer a esta ou daquela religião. O que cremos ou deixamos de crer não muda a realidade da morte. O que muda é a forma como a encaramos. Se cremos na esperança de uma vida futura, como Cristo nos oferece, isso nos ajuda a minorar o sofrimento causado pela morte de um ente querido, pois esperamos revê-lo no futuro. Mas o sofrimento vai sempre existir, embora seja minimizado pelo tempo.

  3. Airton 29 de março de 2010 at 18:24 - 

    Sou espirita. O que constqa nesta mensagem não tem nada de novo para mim ou para qualquer espirita.;

  4. Airton 29 de março de 2010 at 18:02 - 

    Sou espirita portanto o que ele disse já sabia. A doutrina nos ensina de onde viemos e pra onde vamos

  5. Edwin 28 de março de 2010 at 11:42 - 

    Bela história. Obrigado, ajuda a esclarecer não só a morte, porém, também a vida.

    Só um comentário ao respeito, que vem da doctrina dos Mestres Kallawayas, raça de índios médicos das montanhas dos Andes.
    ” Se, quando um ser amado vai embora, nós também vamos junto com ele, a memória dele será diluída nos éteres do Universo. Se a gente aceita sua partida como uma ausência apenas temporária, esse ser viverá para sempre em nossos corações junto com a esperança do eterno reencontro.”

    Dos documentos do “Mestre Pedro (IntiRuna)

  6. Horácio Martins 26 de março de 2010 at 23:47 - 

    Maravilhosa historia, Buda enviado do Criador em uma época onde o mundo necessitava da iluminação interna, na busca do Deus interior…Mas Cristo, como o próprio Buda, também enviado, veio ensinando a busca do Deus externo…”Cristo disse que o Céu será conquistado pelos violentos e os mansos conquitarão a terra”.
    Pregou um Deus yang onde temos que ser lutadores em espírito para chegarmos até Ele…

  7. CYLENE 26 de março de 2010 at 21:59 - 

    Espalhando histórias que glorificam o espiritual, estão contribuindo para um mundo menos amargo e pessoas mais reflexivas.
    Agradeço
    Cylene

Leave a reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

3 × = 12

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

RECEBA NOVOS TEXTOS POR E-MAIL

Quinzenalmente, enviamos um e-mail com os novos textos do site. Participe!

Temas das Publicações