Aos que Sofrem, Orai e vigiai

POESIA – “No Horto”, de Auta de Souza

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“Oro de joelhos, Senhor, na terra

Purificada pelo teu pranto. . .

Minh’alma triste que a dor aterra

Beija os teus passos, Cordeiro santo!

Eu tenho medo de tanto horror. . .

Reza comigo, doce Senhor!

Que noite negra, cheia de sombras.

Não foi a noite que aqui passaste?

Ó noite imensa. . . por que me assombra.”

Tu que nas trevas me sepultaste?

Jesus amado, reza comigo. . .

Afasta a noite, divino amigo!

Eu disse. . . e as sombras se dissiparam.

Jesus descia sôbre o meu Horto. . .

:Estrêlas lindas no céu brilharam,

Voltou-me o riso, já quase morto.

E a sua bôca falou tão doce,

Como se a corda de um’harpa fosse:

“Filha adorada que o teu gemido

Ergueste n’asa de uma oração,

Na treva escura sempre envolvido,

Por que soluça teu coração?

Levanta os olhos para o meu rosto,

Que à vista dele foge o Desgosto.

Não tenhas medo do sofrimento.

Ele é a escada do Paraíso. . .

Contempla os astros do firmamento,

Doces reflexos de meu sorriso.

Não pensa em dores nem canta mágoas,

A garça nívea fitando as águas.

Sigo-te os passos por toda parte,

Vivo contigo como um irmão.

Acaso posso desamparar-te

Quando me trazes no coração?

Nas oliveiras do mesmo Horto,

Enquanto orares, terás conforto.

Olha as estrelas. ., no céu escuro

Parecem sonhos amortalhados. . .

Assim, nas trevas do mundo impuro,

Brilham as almas dos desolados.

Mesmo das noites a mais sombria

Sempre conduz-nos à luz do dia.”

Ergui os olhos para o céu lindo:

Vi-o boiando num mar de luz. . .

E, então, minh’alma num gôzo infindo,

Chorando e rindo, disse a Jesus:

“Guia o meu passo, nos bons caminhos,

Na longa estrada cheia de espinhos.

Dá-me nas noites, negras de dores,

Uma Cruz santa para adorar,

E em dias claros, cheios de flôres,

Uma criança para beijar.

Junta os meus sonhos, no azul dispersos,

Desce os teus olhos sôbre os meus versos. . .

E vós, amigos tão carinhosos,

Irmãos queridos que me adorais

E nos espinhos tão dolorosos

De minha estrada também pisais. . .

Velai comigo, longe da luz,

Que já levantam a minha Cruz.

A hora triste já vem chegando

De nossa longa separação. . .

Que lança aguda vai traspassando

De lado a lado meu coração!

Não adormeçam, meus bem-amados,

Já vejo os cravos ensangüentados.

Longe, bem longe, naquele monte,

Não brilha um astro de luz divina?

É o diadema de minha fronte,

É a esperança que me ilumina!

A Cruz bendita, que aterra o vício,

Fogueira ardente do sacrifício.

Adeus, da vida sagrados laços. . .

Adeus, ó lírios de meu sacrário!

A Cruz, no monte, mostra-me os braços. . .

Eu vou subindo para o Calvário.

Ficai no vale, pobres irmãos,

Da vovozinha beijando as mãos

E se ela, inquieta, com a voz tremente,

Ouvindo as aves pela manhã,

Interrogar-vos ansiosamente:

”’Que é do sorriso de vossa irmã?”

Dizei, alegres: foi passear. . .

Foi colhêr flôres para o Altar.”

E, quando a tarde vier deixando

Nos lábios todos saudosos ais,

E a pobre santa falar chorando:

“A minha neta não volta mais?”

Dizei, sem prantos: “A tarde é linda. . .

Anda nos campos, brincando ainda.”

Livrai su’alma do frio açoite

Das ventanias que traz o Inverno. . .

Cerrai-Ihe os olhos, na grande noite,

Na noite imensa do sono eterno.

Anjo da guarda, de rosto ameno,

Mostra-me o trilho do Nazareno. . .

E… adeus, ó lírios do meu sacrário,

Que eu vou subindo para o Calvário!

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