Cristianismo, Doutrina Espírita

As diferenças entre Espiritismo e Cristianismo

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Aqui estão algumas considerações em cima do artigo “Espiritismo e Cristianismo: entendendo as diferenças”, que foi publicado no Jornal de Opinião, escrito por Paulo da Silva Neto Sobrinho, editado pela Fundação Mariana Resende Costa da Arquidiocese de Belo Horizonte, nº 654, de 10 a 16 de dezembro de 2001, assinada por Evaldo A. D’Assumpção.

Entre as várias coisas que o articulista disse retiramos algumas frases mais interessantes, as quais colocaremos em evidência para depois fazermos os nossos comentários.

Jornal de Opinião: “Citar o evangelho não faz nenhuma doutrina cristã”.

Concordamos plenamente, haja vista vários exemplos na História da Humanidade, em os que diziam seguir o Evangelho, cometeram as maiores barbáries, que não necessitam nem ser citadas, pois é do conhecimento de todos nós. E, infelizmente, até nos dias atuais se guerreia em nome do Cristo.

Jornal de Opinião: “Para se caracterizar uma doutrina como cristã, há que se levar em conta todos os seus princípios e não apenas alguns”.

Assinamos embaixo. Entretanto, cumpre salientar que a Doutrina Cristã pode não ser exatamente o que alguns pensam que ela é, pois interpretações equivocadas do passado, com uma visão unilateral e cega, ou seja, com o
propósito exclusivo de defenderem determinados dogmas – e, algumas vezes, sendo essas interpretações interesseiras e impostas à força aos fiéis -, elas acabaram por deturpar os ensinamentos de Cristo. E isso veio até aos nossos dias, não por culpa dos fiéis, mas porque os teólogos, por orgulho, julgando-se infalíveis – essa é a grande verdade -, não querem mudar de opinião, pois tanto se apegaram ao que diziam, que ficou difícil admitir uma verdade, além da fronteira da sua corrente religiosa.

Jornal de Opinião: “Contudo, entre o espiritismo (ou kardecismo) e o cristianismo existe um abismo intransponível de divergência doutrinária”.

Existe, sim, um abismo intransponível entre o Espiritismo e o Cristianismo, e continuará existindo esse abismo intransponível, até o dia em que os doutos teólogos compreenderem o verdadeiro significado dos ensinos de Jesus.

Mas o que é mais lamentável nisso tudo é que, ao invés de os teólogos procurarem a unidade conosco, através de os laços fundamentais cristãos que nos unem, procuram cada vez mais a desunião com nós espíritas, fazendo de nossas
pequenas divergências teológicas esse grande abismo intransponível entre nós, quando tantas coisas  verdadeiramente cristãs nos unem!

Por que será que os dirigentes católicos e protestantes detestam-nos tanto? Por que se incomodam tanto conosco? Será que é porque os espíritas dão lição de Cristianismo para eles, quando esses líderes religiosos vivem de suas religiões, enquanto que os líderes espíritas vivem para a sua religião?

Sempre que falam em Espiritismo, procuram falar em feitiçaria e magia negra, fazendo uma verdadeira lavagem cerebral nos seus fiéis, como se o Espiritismo fosse essas coisas! Mas é o que disse Jesus: “Nada há de oculto que não seja revelado” (Mateus 10, 26). E as pessoas, aos poucos, estão descobrindo a verdade que liberta.

Sempre houve divergências religiosas, justamente porque uns são autênticos, enquanto que outros são interesseiros, fazendo comércio com a sua religião.

Com o próprio Jesus, que era autêntico em toda a acepção da palavra, desentenderam-se os dirigentes judeus contemporâneos Dele, exatamente porque eles eram mercenários do judaísmo, enquanto que Jesus queria uma religião verdadeira, ou seja, de amor a Deus e ao próximo. E é por tudo isso que tramaram contra a sua vida, acabando levando-O à morte infame na Cruz!

Jornal de Opinião: “Para o cristão – não importa de qual denominação – a salvação do ser humano é essencialmente decorrente da redenção que Cristo nos propiciou”.

Qual o conceito que devemos compreender da redenção? Seria resgatar? Salvar? Pagar? Ou expiar? Por qualquer um deles iremos contradizer o que Jesus disse: “… e há de retribuir a cada um segundo suas obras” (Mateus 16,
27). Veja também que é o mesmo sentido da passagem narrada por Mateus 7, 21: “Nem todos os que dizem: Senhor, Senhor, entrarão no reino dos céus; mas sim os que fazem a vontade do meu Pai que está nos céus. … todo aquele que ouve as minhas palavras e as põe em prática…” e da de Lucas 10, 25-37 (Parábola do Bom Samaritano) onde Jesus nos recomenda seguir o exemplo do samaritano que era considerado como sendo, também, herético pelo sacerdote e pelo levita. Parábola que deveria ser motivo de profundas reflexões por aqueles que se acham os únicos que estão com a verdade, mas que, no entanto, a exemplo do sacerdote e do levita, são egoístas e improdutivos na caridade cristã!

Jornal de Opinião: “Já no pensamento espírita, … a morte e a ressurreição de Cristo de nada valem para a nossa salvação”.

Para a nossa salvação, no sentido que estamos livres de nossos pecados, já que era esse o sentido dos sacrifícios de expiação do pecado, não, como ficou evidente com os argumentos que acabamos de apresentar. Mas, no sentido de que devemos pensar seriamente em nossas ações, já que a vida continua depois da morte, sim, e pelo que devemos ser resignados diante dela que, na realidade, nada mais é que a porta de entrada que se abre para o nosso retorno à vida espiritual é outro exemplo que podemos tirar, da morte de Jesus. O que importa para nós Espíritas é o Evangelho que Ele trouxe para nós. E é por isso que Ele morreu na cruz.

Jornal de Opinião: “A essência do cristianismo é a salvação da humanidade pela redenção de Cristo”.

A nosso ver a essência do Cristianismo são os ensinamentos e os exemplos de Cristo. Se sua morte nos salvou, como fica “a cada um segundo suas obras”? Se estamos remidos por ela, não temos com o que nos preocupar mais, pois já
estamos salvos, pois a morte de Cristo resgatou nossos pecados, diante disso, ficamos com Paulo: “Comamos e bebamos” (1 Coríntios 15, 32).

A salvação no Espiritismo está unicamente em seguir os ensinamentos e os exemplos de Cristo na prática do amor ao próximo, como não conseguimos fazer isso numa vida só, Deus, por misericórdia, nos dá nova oportunidade para fazer.

A reencarnação é justamente isso. E, por ela todas as pessoas um dia se salvarão. Já pelo conceito das religiões dogmáticas poucos se salvam, a esmagadora maioria irá para o inferno e uma vez lá nunca mais terão chance de
sair. Aí perguntamos: Então por que Jesus vem nos dizer da misericórdia de Deus na passagem do filho pródigo?

No Espiritismo a salvação é universal, ou seja, para todos já que Deus “não faz acepção de pessoas” (Romanos 2, 11), enquanto que para as ditas religiões cristãs ela é totalmente exclusivista. Assim perguntamos: Por qual delas podemos ter um Deus justo e imparcial?

Jornal de Opinião: “Em outras palavras, para o cristianismo, Jesus Cristo é verdadeiramente Deus e verdadeiramente o redentor da humanidade”.

Devemos fazer uma ressalva para dizer que: para os teólogos, Jesus Cristo é verdadeiramente Deus. Sim, só para eles, porque não encontramos em nenhuma oportunidade Jesus se declarando Deus. Muito ao contrário, já que diz:
“porque o Pai é maior do que eu” (João 14, 28). Ora, se o Pai, que é Deus, é maior que Jesus, como pode ser Ele o próprio Deus? Em inúmeras passagens vemos Jesus afirmar sua completa e absoluta submissão a Deus, dizendo que “não procuro a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (João 5, 30), “não posso fazer nada por mim mesmo” (João 5, 30), “O filho nada pode fazer por si mesmo” (João 5, 19). Portanto, o endeusamento de Jesus ficou
por conta e obra dos teólogos, não que Jesus tivesse dito isso.

Ademais, se Jesus fosse mesmo Deus, haveria mais de um Deus, e, então, onde ficaria o valor do Judaísmo, do Islamismo e do próprio Jesus de ensinarem que há um só Deus? Estaremos retornando para o Politeísmo? E falar que isso é mistério de Deus, que não podemos compreender, é falta de argumento dos teólogos, pois foram eles que inventaram essas coisas, e não Jesus. Como ficaria essa passagem narrada por Marcos 10, 32, quando um escriba responde a Jesus:

“Perfeitamente, Mestre, disseste bem que Deus é um só e que não há outro além dele”?

Jornal de Opinião: “Para o espiritismo, Jesus Cristo é um mestre espiritualmente muito elevado, porém não é Deus e de nada valeu sua morte e ressurreição, para a nossa redenção. Em síntese, não dependemos dele para
alcançar a salvação”.

Sobre a questão de ser Deus, já falamos. Agora sobre a questão de Ele ser um Mestre, não somos nós quem afirmamos, mas Ele próprio: “… porque não tendes senão um Mestre: o Cristo” (Mateus 23, 10), e “Vós me chamais de Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque realmente eu o sou” (João 13, 13) assim preferimos o que Jesus disse ao que dizem os teólogos.

Morte e ressurreição assuntos já abordados. Só acrescentamos que a morte de Jesus representa o preço do amor Dele para com a Humanidade, ou seja, a conseqüência de Ele ter-se decidido a vir ao mundo para nós a Boa Nova.

Na pergunta 625 de “O Livro dos Espíritos”, Kardec pergunta: Qual o tipo mais perfeito, que Deus ofereceu ao homem para lhes servir de guia de modelo? Cuja resposta foi: Vede Jesus. Portanto, existe uma dependência nossa Dele. Só que a nossa é seguir o seu exemplo, amando a Deus e ao nosso próximo como a nós mesmos, base fundamental de sua doutrina. Mas, os teólogos preferem a salvação de graça, o que podemos fazer? E para que, então, serve o Evangelho de Jesus, que para Ele no-lo trazer, custou-lhe tanto sacrifício?

Jornal de Opinião: “Para o cristianismo, não existem reencarnações nem os mortos retornam para se comunicar com os vivos”.

Novamente somos obrigados a fazer mais uma ressalva. Para os teólogos não existem reencarnações nem os mortos retornam para se comunicar com os vivos.

Se Jesus afirma categoricamente: “E, se quiserdes compreendê-los, João é o Elias que estava para vir” (Mateus 11, 14). E como sabia perfeitamente que, mesmo tendo dito isso, muitos ainda não iriam entender que João Batista era o
Elias reencarnado, mas respeitando o livre-arbítrio de cada um, completa: “Quem tiver ouvidos, que ouça” (Mateus 11, 15).Tão óbvio que é difícil acreditar que ainda existem pessoas que “não querem compreender”.

Várias são os pesquisadores sobre este tema, cujos livros se esgotam rapidamente nas livrarias. Podemos citar Ian Stevenson, Patrick Druout, Dra. Helen Wambach, Dr. H. N. Banerjee, Dra. Edith Fiore, Dr. Brian L. Weiss, Dr.
Hernani Guimarães Andrade, entre outros, depõem categoricamente a favor da reencarnação. E a TRVP – Terapia Regressivas às Vivências Passadas, muito embora não tem por objetivo comprovar a reencarnação, mas se apóia neste princípio para cura dos pacientes que são a ela submetidos.

As correntes dogmáticas dizem que, após a morte, iremos ou para o Céu ou para o Inferno. Ora, pelo que vemos em nossa sociedade, poderemos afirmar, com absoluta certeza, que existem mais almas no inferno que no céu. Assim,
perguntamos, onde está a Justiça Divina, quando nos coloca eternamente no inferno, e quando apenas erramos por, no máximo, uns 100 anos? Será que o “reino do diabo” vai ganhar do Reino de Deus? Onde fica o poder de Deus, quando Ele quer que todos se salvem? Alguém conseguirá explicar isso, tendo como princípio a Justiça Divina e a lógica?

Quanto à questão da comunicação com os mortos, não iremos citar Jesus que voltou depois da morte, porque podem dizer que estamos apelando, embora isso seja uma verdade bíblica do Novo Testamento. Mas poderemos citar a passagem narrada por Mateus 17, 1-9, quando, na presença de Pedro, Tiago e João, Jesus conversa com Moisés e Elias que já estavam mortos. Não me venham dizer que foram demônios que conversaram com Jesus, primeiro porque o texto é claro, e, segundo, porque sabemos que os citados discípulos testemunharam essa comunicação e
constataram que se tratava realmente de Moisés e Elias. E não podemos esquecer que Jesus disse: “Aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço, e fará ainda maiores que estas” (João 14, 12).Assim, se existia uma proibição anterior feita pela Lei de Moisés, aqui ela foi plenamente liberada por quem tem autoridade para isso. E nós Espíritas fazemos a mesma coisa.

Por outro lado, se não existe comunicação com os mortos, pergunto: Por que os católicos, incluindo fiéis e sacerdotes, fazem pedidos aos santos? Mais ainda: Se a Igreja comprovou que inúmeros pedidos foram atendidos, não seria porque realmente houve uma comunicação? A não ser que querem dizer o que diz um determinado padre católico que vive para denegrir o Espiritismo: que tudo foi produto do inconsciente.

E, já que falamos em proibição, perguntamos: Já que toda a Bíblia para vocês é inspirada por Deus, como conceber Deus proibindo a comunicação com os mortos, mesmo sabendo que ela não pode acontecer?

E queremos recomendar aqui o livro “Os Mortos nos Falam”, do Padre francês, François Brune, que nele livro diz: “Escrevi este livro para tentar derrubar o espesso muro de silêncio, de incompreensão, de ostracismo, erigido pela maior parte dos meios intelectuais do ocidente. Para eles, dissertar sobre a eternidade é tolerável, dizer que se pode entrar em comunicação com ela é considerado insuportável”. E lembramos que esse padre é representante do
Vaticano para Transcomunicação (contato com os espíritos, via eletrônica) e que é, também, reencarnacionista.

Jornal de Opinião: “Em comum, ambos têm a caridade. Em comum, ambos acreditam num Deus único, criador de todo o Universo. Em comum, todos oram para esse Deus. Mas aí termina a semelhança”.

Parabéns ao autor do artigo. Poucos reconhecem isso. Mas, então, vamos-nos unir pelo essencial na semelhança existente entre nós, ou vamos dividir-nos pelas questões secundárias que há entre nós? Será preferível buscarmos a união, que tanto querem Deus e Jesus, a buscarmos a separação do anticristo? Fica aí a pergunta.

Jornal de Opinião: “No essencial, os dois pensamentos se opõem de modo radical e não são conciliáveis, assim como água e óleo não se misturam homogeneamente”.

Esses princípios, ou seja, a reencarnação e a comunicação com os mortos, como já vimos – e demos o mínimo de exemplos -, estão claramente demonstrados no Evangelho, são perfeitamente conciliáveis com os ensinos de Jesus. Mas, se os teólogos querem ser maiores que Jesus, o que podemos fazer?

Os Espíritas seguimos o Cristianismo Bíblico, o Primitivo, o verdadeiro, enquanto que os teólogos seguem o Cristianismo Dogmático, que pouco ou quase nada tem a ver com os ensinamentos de Jesus. Eis o grande problema do Cristianismo, que está sendo esfacelado pelos seus próprios teólogos, ao longo dos séculos, os quais, além de não arrebanharem fiéis para o Reino de Deus, arrastam as pessoas para o materialismo. E sobre o que disse Jesus a respeito dos sacerdotes judeus, pode ser dito também sobre eles: “Vós fechais aos homens o reino dos céus: vós mesmos não entrais e nem deixais que entrem os que querem entrar” (Mateus 23, 13).

Jornal de Opinião: “Por isso mesmo, não se pode dizer que o espiritismo é uma religião cristã. Afirmar que é uma religião com alguns poucos pontos em comum com o cristianismo, é verdade. Mas dizer que seja cristã, é
absolutamente falso”.

Gostaríamos de novamente dar nossos parabéns ao autor, já que reconhece o Espiritismo como uma religião. É louvável, pois muitos do movimento Espírita o querem apenas como uma ciência. Talvez, esses nem mesmo freqüentem Centro algum. Mas, se fizéssemos uma pesquisa, iríamos verificar que 99,9% dos Centros
Espíritas de nosso País praticam-no como sendo uma religião, tendo, invariavelmente, pelo menos uma reunião semanal de Evangelização, e não como ciência.

Vejamos algumas passagens que poderão definir se somos cristãos ou não:

Em Mateus 18, 20, Jesus disse: “onde estão dois ou três reunidos em meu nome, eu estou lá entre eles”. Em Atos 10, 34, Pedro disse: “De fato agora compreendo que Deus não faz distinção de pessoas; mas todos os que o
adoram e praticam o bem são aceitos por ele, seja qual for a sua nação”. E Paulo, na 2 Coríntios 10, 7, disse: “julgais as coisas só pelas aparências. Se alguém tem a certeza de pertencer a Cristo, considere que nós somos de Cristo
com Ele”.

A máxima do Espiritismo “FORA DA CARIDADE NÃO HÁ SALVAÇÃO” é fora de dúvida eminentemente evangélica e cristã, possui um caráter universalista, pois todos, independentemente de religião, podem praticar a caridade. Entretanto, a outra máxima que afirma que “fora da Igreja não há salvação” é extremamente sectária e
egoísta, e não se coaduna, portanto, com qualquer ensinamento de Jesus, que disse: “E pelo fato de vos amardes uns aos outros que todos conhecerão que sois meus discípulos” (João 13, 35).

Assim, meu caro leitor, você pode bem observar quem se esforça para seguir o ensinamento de Cristo e quem não se esforça, querendo e pregando a comodista e egoísta salvação de graça! E onde fica o ensinamento de Jesus de que a cada um será dado segundo as suas obras?

Bibliografia
Bíblia – Mensagem de Deus – Novo Testamento, LEB – Edições Loyola, SP,
1984.
Bíblia Sagrada –Editora Ave Maria, 68ª Edição, 1989.
Os Mortos nos Falam, Pe. François Brune, Edicel, DF, 1ª edição, 1991.

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