Doutrina Espírita, Dúvidas dos leitores

Como viver neste mundo injusto sem se corromper?

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Tema aparentemente simples para os que estão mais adiantados no estudo da Doutrina, porém, muito complexo diante dos mais diversos papéis exercidos pelas pessoas em sua vida em família e sociedade.

São inúmeras as relações e variáveis que se impõem, principalmente, para aqueles que se expõem vida afora, em busca do sustento de suas famílias e auxílio aos que deles de alguma forma dependem.

Além disso, é preciso considerar que vivemos em um mundo de provas e expiações, onde o mal ainda faz muito barulho e importuna a vida dos que desejam uma vida reta e sem espaço para os jogos de interesses.

Contudo, é preciso admitir que as condições morais que permeiam as relações não são perfeitas. Na verdade, estão longe disso. Logo, aquele que se expõe ao mundo, seja como trabalhador, empresário, político, religioso etc., está sempre sujeito a se deparar com situações que irão testá-lo em suas convicções e princípios, e que, portanto, provarão a sua conduta e caráter.

É o caso do trabalhador que se sujeita a um tipo de trabalho que lhe dá o salário, mas que nem sempre sua empresa oferece um produto ou serviço de qualidade à sociedade. Ou o que é pior, que pode até prejudicar pessoas e a sociedade.

Imagine, por exemplo, um garçom que trabalha naquela boate onde a droga rola solta e ele é obrigado a servir bebidas àqueles que, muitas vezes, saem alcoolizados e/ou drogados e, em alguns casos, causam acidentes, dissensões conjugais, dentre outras consequências nefastas.

Mas é este o trabalho que ele encontrou no momento e que lhe dá o sustento. E de seu trabalho dependem, muitas vezes, inúmeras pessoas.

E o caso daquele pequeno empresário que muitas vezes vive de “vender o almoço para comprar o jantar”, como se diz no popular, enfrentando uma concorrência desleal que sonega tributos para lhe tirar do jogo e que o impele a fazer o mesmo para continuar competindo e gerando alguns negócios visando trazer-lhe sua única fonte de renda?

E aquele vendedor corporativo que tem suas metas a cumprir e que vê seus negócios travados, pois em seu mercado existe, há muitos anos, a prática do “pedágio” junto aos decisores que, sem o tal “agrado”, lhes manterão as portas fechadas, colocando em risco seu emprego?

Aí a gente pode pensar assim: mas todos podemos fazer as nossas escolhas! Só vive assim, diante dessas situações, aqueles que não têm caráter, que se prestam a qualquer coisa para ganhar dinheiro.

Mas quem de nós é capaz de avaliar o sentimento que cada uma dessas pessoas, refletidas nos exemplos acima, carrega em seu íntimo em termos de dor moral, por não conseguir se desvencilhar de tais situações, visto que de seu trabalho dependem, na maioria dos casos, familiares, funcionários e suas famílias, e outros que são apoiados por estes?

Aqui, cabe um primeiro ensinamento de Jesus: “Não julgueis, para não serdes julgados! Pois da mesma forma que julgarem, vocês serão julgados; e a medida que usarem, também será usada para medir vocês.”

Isso vale tanto para quem critica essas pessoas, quanto para as próprias pessoas que fazem uma autocrítica muito dura, causando em si próprios conflitos que levam às vezes a distúrbios emocionais e psicológicos.

Quando não estamos expostos às vicissitudes do cotidiano, é mais fácil viver uma vida de suposta retidão e alinhamento com os desígnios morais do Cristo.

Dizemos “suposta” pois eis que na falta de exposição ao mundano há aqui a ausência, muitas vezes, da provação. Há quem diga que devemos viver com o mínimo, reduzindo ao máximo nossas necessidades. Contudo, se todos vivessem assim, sem se expor ao mundo de trocas e de relação, a Lei do Progresso (uma das leis morais do universo) não se concretizaria. Razão pela qual cabe a todos, em algum momento das sucessivas existências (ou melhor na maioria ou totalidade delas), buscar através da sua evolução material e moral, melhorar suas condições e seus meios para ser provado a ponto de, a partir do enfrentamento da dura realidade, gerar progressos para si e para aqueles que o circundam. Ou seja, não basta vivenciar a retidão em pensamentos e sentimentos. É preciso que ela seja colocada à prova nas mais diversas e embaraçosas situações da vida de relação. Pois é aqui que nos confrontamos com a realidade e o medo do sofrimento nos testa o caráter, nos mostra que a retidão do que sentimos e no que acreditamos, por vezes, exige que sejamos maleáveis diante das circunstâncias, silenciosos, complacentes até, em prol de uma causa maior. Lembre-se de Pedro que, embora tenha negado o Cristo 3 vezes antes de o galo cantar, como previra o Mestre, não deixou ainda assim de cumprir sua missão, edificando as bases da Igreja Cristã.

Por isso, irmãos, diante das incongruências morais a que muitos de nós somos submetidos diariamente na busca de nossa subsistência, é preciso lembrar deste alerta que o Mestre fez a Pilatos pouco antes de ser levado à crucificação: Disse o Nazareno: “Meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, a minha gente houvera combatido para impedir que eu caísse nas mãos dos judeus; mas, o meu reino ainda não é aqui.

Diante do exposto, concluímos que é muito difícil para qualquer um de nós, simples mortais, espíritos ainda bastante relativos e precários, responder à pergunta que nos foi trazida por um querido leitor: “Como viver neste mundo injusto sem se corromper?”

Necessária se faz a análise mais ampla do que é viver em um mundo onde ainda há a cultura do mal proceder, especialmente nas nações subdesenvolvidas, onde as leis ainda não são suficientemente claras e rígidas e onde a sociedade ainda não amadureceu em termos de ética e princípios fundamentais da convivência humana, no tocante às relações das mais diversas naturezas.

O que podemos oferecer aqui, portanto, pautado nos ensinamentos do Mestre, é sugerir que se faça uma reflexão de como a resposta de Jesus na passagem a seguir pode ser analogamente aplicada para solucionar esse dilema moral. Eis a passagem:

Os fariseus, tendo-se retirado, entenderam-se entre si para enredá-lo com as suas próprias palavras. Mandaram então seus discípulos, em companhia dos herodianos, dizer-lhe:

Mestre, sabemos que és veraz e que ensinas o caminho de Deus pela verdade, sem levares em conta a quem quer que seja, porque, nos homens, não consideras as pessoas. – Dize-nos, pois, qual a tua opinião sobre isto: É-nós permitido pagar ou deixar de pagar a César o tributo?

Jesus, porém, que lhes conhecia a malícia, respondeu: Hipócritas, por que me tentais? Apresentai-me uma das moedas que se dão em pagamento do tributo. E, tendo-lhe eles apresentado um denário, perguntou Jesus: De quem são esta imagem e esta inscrição? – De César, responderam eles. Então, observou-lhes Jesus: Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.

César aqui personifica as exigências passageiras do mundo a que todos estamos submetidos, uns mais outros menos.

Que não nos falte a sabedoria e o discernimento diante das mais diversas circunstâncias de provação e que a Deus saibamos entregar a essência de nossa obra de vida e que, a cada dia, lembremos sempre de pedir ao Pai que “não nos deixes cair em tentação e livrai-nos do mal, amém!”

Equipe Um Caminho

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